terça-feira, 3 de julho de 2012

SOBRE A PRECE

Os espíritos sempre afirmam: "A forma nada vale, o pensamento é tudo. Orai de acordo com vossas convicções e conforme melhor vos apraz; um bom pensamento vale mais que palavras numerosas, das quais o coração está ausente".
Os espíritos não prescrevem nenhuma fórmula definitiva para a prece; quando no-las oferecem, tem em mente fixar as ideias e sobretudo, despertar nossa atenção para certos princípios da Doutrina Espírita. Outras vezes fazem-no para auxiliar as pessoas que tem dificuldade em formular suas ideias, pois que muitas acreditariam não ter realmente orado, uma vez que seus pensamentos não foram devidamente expressos.
[...]A finalidade da prece é elevar nossa alma a Deus. A diversidade das fórmulas não deve estabelecer nenhuma diferença entre aqueles que creem ou descreem de sua eficácia e menos ainda entre os adeptos do espiritismo, pois que Deus aceita todas as preces, desde que sejam sinceras.
É preciso, pois,que não se considere[...](as preces enviadas pelos espíritos_ grifo meu), como um formulário absoluto, mas sim como variações baseadas nas instruções oferecidas pelos espíritos. Elas contem uma aplicação dos princípios morais da moral evangélica, podem ser tidas como um complemento às orientações espirituais relativamente aos nossos deveres para com Deus e o próximo, nas quais são recordados todos os princípios da Doutrina Espírita.
O Espiritismo reconhece como boas as preces de todos os cultos, desde que sejam ditadas pelo coração e não pelos lábios; ele não impõe nenhuma e nenhuma repudia. Deus é muito grande, afirma, para ignorar a voz que por Ele implora ou que Lhe ergue louvores, apenas porque o faz de uma certa maneira e não de outra. Quem quer que lance anátema contra as preces que não estão em seu formulário, apenas provará que desconhece a grandeza de Deus. Crer em Deus atendo-se a uma fórmula é emprestar-Lhe a pequenez e as paixões da humanidade.
Uma condição essencial da prece, segundo Paulo, o apóstolo (XXVII,16), é ser inteligível, a fim de que fale ao nosso espírito. Por isso não basta que seja dita em uma linguagem compreensível àquele que ora. Há preces formuladas em linguagem tão vulgar que não dizem mais ao pensamento do que se fossem em uma língua estrangeira e que, por isso mesmo, não alcançam o coração. As poucas ideias que contem são, quase sempre, abafadas sob a superabundância das palavras e do misticismo da linguagem.
A principal qualidade da prece é ser clara, simples, concisa, sem fraseologia inútil nem luxo de epítetos, que não passam de enfeites de ouropéis. Cada palavra deve ter o seu alcance, revelar uma ideia, fazer vibrar uma fibra da alma. Numa palavra, ela deve levar à reflexão. Só assim condicionada a prece pode atingir seu objetivo. De outra forma é apenas um ruído. Observai com que ar de distração e com que volubilidade são recitadas na maioria das vezes; vê-se os lábios que se movem, mas a expressão da fisionomia e mesmo o som da voz põem-nos em face de um ato maquinal, puramente exterior, ao qual a alma permanece indiferente.[...]
Allan Kardec
Preâmbulo do livro Preces Espíritas de Cairbar Schutel.

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