sábado, 21 de julho de 2012

A ORIGEM DOS ÍNDIOS KARAJÁ

A Origem dos Índios Karajá - Uma Lenda Brasileira
No início dos tempos, quando foram criados pelo Ser Supremo – KANANCIUÉ - , os Karajá eram imortais. Viviam felizes como peixes – aruanãs. Não conheciam nada que não fosse dos rios e das águas. Não conheciam o sol, nem a lua, nem as plantas. Nem animal algum que não fosse dos rios.
No fundo do rio onde viviam havia um buraco pelo qual vinha uma luz que os fascinava. Essa luz ressaltava as cores das escamas e de tudo que existia por perto. Quando se aproximavam daquele buraco, ficavam curiosos. Tentavam ver com ansiedade o que era aquilo. Por causa da luminosidade, não conseguiam divisar o que existia além do buraco.
Como seria do outro lado? Perguntavam-se.
Mas o Ser Supremo havia proibido que entrassem ali. Senão, perderiam a imortalidade. E apesar da tentação, eles obedeciam fielmente.
Certo dia, um jovem Karajá, um aruanã mais audacioso, ousou e foi ver o que existia do outro lado daquele buraco luminoso. Ficou surpreso quando chegou às areias brancas do rio Araguaia e descobriu encantado um mundo maravilhoso, totalmente diferente do seu. Uma paisagem deslumbrante.
Viu o céu de um azul profundo com um Sol radiante iluminando e aquecendo a natureza. Pássaros multicoloridos se misturavam no ar com muitos matizes. Escutou a música do canto das araras, periquitos e sabiás. Muitos animais estavam em paz, um do lado do outro: tamanduás, onças, cutias. Nas campinas, flores perfumadas. Nas florestas, árvores carregadas de frutos.
O jovem Karajá andou por essas maravilhas até o anoitecer, quando, então, descobriu outro cenário ainda mais bonito: a Lua despontava prateada iluminando as montanhas ao longe. Constelações de estrelas iluminavam o céu.
Ele passou a noite deslumbrado até ver renascer o Sol no horizonte. Resolveu voltar ao buraco luminoso, descrever para os seus irmãos e irmãs peixes tudo que tinha visto.
Com os olhos cheios de beleza, contou o que tinha acontecido e o que tinha observado:
__ Passei pelo buraco luminoso, descobri um mundo que nunca havia imaginado e que vocês também não podem imaginar. Com alegria no coração, contemplei o Sol e os animais. Os campos e as florestas. Sob a luz da Lua, vi as montanhas e muitas estrelas. Escutei música vinda dos pássaros e dos riachos. Vamos todos até lá? Todos os seus irmãos Karajá, mesmo sem entender tudo que ouviram, quiseram logo acompanhar o jovem afoito. Mas os mais experientes, os anciãos, disseram com grande sabedoria:
- Irmãos e irmãs, temos que respeitar nosso Criador, que nos quer bem e nos fez imortais assim como ele. Vamos falar com ele e pedir-lhe a permissão.
Todos os aruanãs concordaram e assim fizeram. Depois de ouvi-los, o Criador – Kananciué – respondeu, com um pouco de tristeza por causa da desobediência do jovem:
- Entendo que queiram transpor o buraco luminoso, que os levará deste mundo a outro de cores e beleza. Lá, poderão contemplar a majestade do Sol, o esplendor das estrelas, a suavidade da Lua. Descobrirão flores, frutos e animais. Poderão se divertir e deliciarem-se com as águas claras do rio Araguaia e suas areias brancas. Dançar ao som do canto dos pássaros. Mas revelo a vocês o que não sabem, nem veem. Toda a beleza naquele mundo é efêmera como a borboleta das águas que conhecem, que nasce hoje e desaparece amanhã. Os seres de lá não são como vocês: nascem, crescem, envelhecem e caminham para a morte. São mortais. Vocês ganharão a liberdade, mas perderão a imortalidade.
A decisão é de vocês. O que decidem? O que escolhem?
Houve um grande silêncio. Todos olharam para o jovem que descobrira o mundo da liberdade. Todos estavam fascinados com a possibilidade de viver a beleza, confirmada pelo Ser Supremo – Kananciué . Então, responderam:
- Sim, pai, queremos ir viver no paraíso encantado dos mortais.
O Ser Supremo falou com eles pela última vez:
- Aceito a decisão de vocês porque acima de tudo prezo a liberdade. Vocês trocarão a imortalidade pelo dom precioso da liberdade. Saibam que quando passarem por aquele buraco, vocês serão mortais, mas totalmente livres. Não deixem que lhes roubem a liberdade.
E todos aqueles aruanãs passaram entusiasmados pelo buraco luminoso para chegar ao mundo da beleza efêmera e alegrias finitas.
Até hoje os Karajá vivem naquele paraíso, às margens do rio Araguaia. Concentram-se, principalmente, na ilha do Bananal. Tiveram a coragem de renascer como seres de liberdade, o que continuam sendo até hoje.
Baseado em “Aceitar a morte para ser livre” in “O casamento entre o céu e a terra; contos dos povos indígenas do Brasil” de Leonardo Boff. Edição Salamandra.

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