sábado, 30 de junho de 2012

UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA

Numa cidadezinha do interior, daquelas bem pequenas, moravam duas vizinhas: Dona Esperança e Dona Raimunda. As duas já eram senhoras de uma certa idade, ambas viúvas.
Apesar de tantas coisas em comum, eram o oposto uma da outra. Dona Raimunda cara fechada, ranzinza, vivia dentro de casa e não era simpática com as pessoas. Já Dona Esperança, era uma simpatia. Sorriso no rosto, sempre. Vivia cantando e as pessoas que passavam frente a sua porta gostavam de ali parar e puxar um dedo de prosa.
Dona Raimunda tinha uma casa grande, cheia de coisas: tinha até uma geladeira que nem precisava abrir a porta pra tomar água, era só colocar o copo do lado de fora que a água saía sozinha!
Os vendedores de coisas eram os únicos que procuravam Dona Raimunda porque ela era uma boa compradora. Não resistia a uma comprinha, principalmente se fosse liquidação. Na maioria das vezes ela nem precisava do que estava comprando. Sua casa estava cada vez mais cheia de coisas... só coisas...Mas, apesar de tudo isto, havia uma grande tristeza em seu olhar! Afinal, as coisas não eram boas companhias...elas não conversavam, não consolavam, nem trocavam ideias, apenas estavam lá.
Na casa de Dona Esperança, era o contrário, pois nada havia de móveis. Nem geladeira ela tinha. Havia apenas um fogão de lenha, uma mesinha com bancos feitos de caixotes de feira, uma prateleira que guardava alguns vasilhames e uma cama simples. Mas, apesar de tanta pobreza sua casa era muito bonita, pois era tudo muito limpo. Dona Esperança passava barro branco no fogão de lenha. O chão era bem varrido e compacto. Ela usava uma técnica no chão, que parecia encerado. Na prateleira, uma renda feita à mão caía de fora a fora, enfeitando. E as vasilhas de alumínio brilhavam feito o sol. Em cima dos bancos de caixote, descansavam almofadas coloridas e bordadas que ela mesma fazia e na cama uma linda colcha de retalhos coloridos. Ah! Havia uma cortina de croché na janela. Dava gosto de ver. Havia naquele lugar, uma energia boa, inexplicável.
Dona Esperança passava toda a manhã cuidando de um pequeno jardim que fizera à frente da casa e no quintal, uma horta muito viçosa. Os moradores da cidade compravam suas verduras e daí vinha toda sua renda. Mas as pessoas saíam de lá com alimento saudável para o corpo e com uma dose de vacina para a alma, pois o encontro com aquela senhorinha era sempre como o seu nome indica: uma dose de esperança. Sua conversa era muito saudável, sem reclamações e com muita alegria.
Dona Raimunda não entendia tanto movimento naquela casa vizinha. Por que escutava tantos risos, tanto ânimo? Às vezes ela até dava uma espiadinha pela janela e achava tudo uma bobagem e até reclamava para si mesmo que aquilo era perda de tempo e fechava a janela. O sol quase não entrava naquela casa, pois as porta e janelas estavam sempre fechadas. Pelo lado de fora ouvia-se o som da televisão de 32 polegadas, aquisição da última compra.
Mas, certo dia... tudo estava muito silencioso na casa de Dona Raimunda. Os vendedores bateram à porta e ela não atendeu. Dona Esperança , que estava no jardim, achou estranho porque não havia um vendedor que não fosse recebido por ela. E resolveu investigar.
Bateu à porta, chamou pelo seu nome e nada...foi à porta dos fundos e observou que ela estava só encostada e entrou na casa, chamando pela dona. Assim que chegou ao quarto, viu Dona Raimunda ainda deitada e quase sem forças para falar. Ela estava doente.
Dona Esperança então, abriu as janelas, deixou entrar o sol com sua luz e seu calor. Preparou um bom mingau quentinho, um chazinho das plantas do quintal e ofereceu à vizinha. Ainda sem muitas condições, Dona Raimunda se alimentou e agradeceu à senhora que tão gentilmente a socorreu.
Daí por diante, tudo mudou na vida das duas. Elas se tornaram amigas. Dona Raimunda parecia outra pessoa. Rejuvenesceu, ficou alegre, começou a cultivar flores e ganhou até um cachorrinho como companhia. As pessoas agora conversavam com ela também, que passou a ser mais receptiva, sorridente, alegre.
Ela percebeu que sua casa estava cheia de coisas materiais e vazia de coisas importantes como a fé, a esperança, a alegria, a companhia das pessoas. Ela trocou ideias com Dona Esperança e deu para a amiga alguns móveis, uma geladeira e outras coisas que ela tinha sobrando em sua casa, não que Dona Esperança sentisse falta disto, mas com o objetivo de dar um pouco mais de conforto para a amiga (que aceitou para não fazer desfeita). Dona Raimunda então, fez o mesmo com outras pessoas que necessitavam destas coisas materiais mais do que ela e foi doando...doando... E a cada doação seu coração sentia-se melhor e ela ficava mais feliz. Os vendedores foram os únicos que não gostaram da mudança pois tiveram que encontrar outras pessoas para enganar ...
E tudo ficou como deveria ser...
Magda Kokke
22/06/2012

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