sexta-feira, 20 de abril de 2012

A ONÇA E O MACACO

Os bichos fizeram uma festa, e a onça convidou o macaco. Ela pensava num jeito de almoçá-lo. Ele, que de besta não tinha nada, pensou em recusar. Mas, refletindo, disse:
— Não posso, amiga onça; estou muito doente para caminhar, mas se você me deixar montar nas suas costas, eu vou.
E tanto o macaco insistiu que a onça acabou aceitando. Aí o macaco começou a fazer exigências:
— Então deixa eu botar um bichinho nas suas costas.
— Ah! Já quer me botar sela? Tá bom, eu deixo.
— Agora, deixa eu botar um bichinho na sua boca.
— Ah! Já quer me botar brida pra tirar tirão? Tá bom, eu deixo.
— Agora, deixa eu botar aquele bichinho no meu pé.
— Ah! Já quer calçar espora? Tá bom, eu deixo.
— Agora, deixa eu pegar aquele bichinho que bate nas costas.
— Ah! Já quer usar chicote? — a onça refugou, mas também acabou aceitando: — Tá bom, eu deixo.
E o macaco se mandou para a festa, encalcando a espora na onça.
Quanto mais ela pulava mais o macaco descia-lhe o chicote no lombo. Quando chegaram, a onça já estava virada no bicho. O macaco desceu e a amarrou no mourão. O malandro entrou no salão e sambou a noite toda. Depois comeu um grande pedaço de carne e atirou os ossos para a onça, que, retada pelo vexame, começou a chamar:
— Vem logo, amigo macaco!
— Vou hoje, vou amanhã! Vou hoje, vou amanhã!
Quando o macaco resolveu ir, o dia já estava amanhecendo. Então ele chamou os outros bichos:
— Vem, gente, orear a onça pr’eu montar.
Depois montou e saiu em disparada, tão rápido que bateu num pau, caindo macaco pra um lado, sela pra outro, deixando a onça livre. A onça, então, o ameaçou:
— Vou te esperar na bebida, amigo macaco! — e ficou montando guarda na beira do córrego.
Passou o tempo, e o macaco estava morto de sede, mas não ousava se aproximar do lugar com medo de a onça vingar a desfeita. Aí o macaco achou um jeito de enganá-la de novo: pegou umas cabaças e um machado e passou perto da amiga, que lhe indagou:
— Aonde vai, amigo macaco?
— Vou ali furar umas abelhas.
— Então traz um pouco de mel pra mim.
— Trago sim, amiga onça.
O macaco encheu as cabaças de mel e a algibeira de espinho.
Chegando a bebida, disse pra onça:
— Fecha os olhos e abre a boca.
Ela desconfiou, mas o macaco despejou um pouco de mel em sua boca e, assim, enganou a tonta, que pediu mais:
— Mais um pouco, amigo macaco.
— Lá vai! — disse o macaco, e despejou todo o espinho na boca da onça, que, engasgada, saiu em disparada, deixando a bebida livre para o macaco, enfim, matar a sede.
Jacinto Farias Guedes,
Brejinho, Igaporã, Bahia.
extraído do livro Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria), O macaco e a onça, contrapõe a esperteza do animal mais fraco à estultícia do mais forte.

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