sexta-feira, 20 de abril de 2012

A MOURA TORTA

Versão de Sílvio Romero, de 1885.
Era uma vez um rei que tinha um filho único, e este, chegando a ser rapaz, pediu para correr mundo. Não houve outro remédio senão deixar o príncipe seguir viagem como desejava.
Nos primeiros tempos nada aconteceu de novidades. O príncipe andou, andou, dormindo aqui e acolá, passando fome e frio.
Numa tarde ia ele chegando a uma cidade quando uma velhinha, muito corcunda, carregando um feixe de gravetos, pediu uma esmola.
O príncipe, com pena da velhinha, deu dinheiro bastante e colocou nos ombros o feixe de gravetos, levando a carga até pertinho das ruas.
A velha agradeceu muito, abençoou e disse:- Meu netinho, não tenho nada para lhe dar: leve essas frutas para regado mas só abra perto das águas correntes.
Tirou da sacola suja, três laranjas e entregou ao príncipe, que as guardou e continuou sua jornada.
Dias depois, na hora do meio-dia, estava morto de sede e lembrou-se das laranjas. Tirou uma, abriu o canivete e cortou.
Imediatamente a casca abriu para um lado e outro e pulou de dentro, uma moça bonita como os anjos, dizendo:- Quero água! Quero água!
Não havia água por ali e a moça desapareceu. O príncipe ficou triste com o caso. Dias passados sucedeu o mesmo.
Estava com sede e cortou a Segunda laranja. Outra moça, ainda mais bonita, apareceu, pedindo água pelo amor de Deus.
O príncipe não pode arranjar nem uma gota. A moça sumiu-se como uma fumaça, deixando-o muito contrariado.
Noutra ocasião, o príncipe tornou a ter muita sede. Estava já voltando para o palácio de seu pai. Lembrou-se do sucedido com as duas moças e andou até um rio corrente.
Parou e descascou a última laranja que a velha lhe dera. A terceira moça era bonita de fazer raiva. Muito e muito mais bonita que as duas outras.
Foi logo pedindo água e o príncipe mais que depressa lhe deu. A moça bebeu e desencantou, começando a conversar com o rapaz e contando sua história.
Ficaram namorados um do outro. A moça estava quase nua e o príncipe viajava a pé, não podendo levar sua noiva naqueles trajes.
Mandou subir para uma árvore, na beira do rio, despediu-se dela e correu para casa.
Nesse momento chegou uma escrava negra, cega de um olho, a quem chamavam a Moura Torta.
A negra baixou-se para encher o pote com água do rio mas avistou o rosto da moça que se retratava nas águas e pensou que fosse o dela. Ficou assombrada de tanta formosura.
Meu Deus! Eu tão bonita e carregando água? Não é possível... Atirou o pote nas pedras, quebrando-o e voltou para o palácio, cantando de alegria.
Quando a viram voltar sem água e toda importante, deram muita vaia na Moura Torta, brigaram com ela e mandaram que fosse buscar água, com outro pote.
Lá voltou a negra, com o pote na cabeça, sucumbida. Meteu o pote no rio e viu o rosto da moça que estava na árvore, ficou mesmo convencida da própria beleza.
Sacudiu o pote bem longe e regressou para o palácio, toda cheia de si.
Quase a matam de vaias e de puxões.
Deram o terceiro pote e ameaçaram a negra de uma surra de chibata se ela chegasse sem o pote cheio d'água.
Lá veio a Moura Torta no destino. Mergulhou o pote no rio e tornou a ver a face da moça.
Esta, não podendo conter-se com a vaidade da negra, desatou uma boa gargalhada.
A escrava levantou a cabeça e viu a causadora de toda sua complicação.
- Ah! É você, minha moça branca? Que está fazendo aí, feito passarinho? Desça para conversar comigo. A moça, de boba, desceu, e a Moura Torta pediu para pentear o cabelo dela, um cabelão louro e muito comprido que era um primor.
A moça deixou. A Moura Torta deitou a cabeça no seu colo e começou a cantar, dando cafuné e desembaraçando as tranças.
Assim que a viu muito entretida, fechando os olhos, tirou um alfinete encantado e fincou-o na cabeça .
Esta deu um grito e virou-se numa rolinha, saindo a voar.
A negra subiu na mesma árvore e ficou esperando o príncipe, como a moça lhe tinha dito, de boba.
Finalmente o príncipe chegou, numa carruagem dourada, com os criados e criada, trazendo roupa para vestir a noiva.
Encontrou a Moura Torta, feia como a miséria. O príncipe assim que a viu, ficou admirado e perguntou a razão de tanta mudança.
A Moura Torta disse:- O sol queimou minha pele e os espinhos furaram meu olho. Vamos esperar que o tempo melhore e eu fique como era antes.
O príncipe acreditou e lá se foi a Moura Torta de carruagem dourada, feito gente. O rei e a rainha ficaram de caldo vendo uma nora tão horrenda como a negra.
Mas, palavra de rei não volta atrás e o prometido seria cumprido. O príncipe anunciou seu casamento e mandou convite aos amigos.
A Moura Torta não acreditava nos olhos. Vivia toda coberta de seda e perfumada, dando ordens e ainda mais feia do que carregando o pote d'água.
Todos antipatizavam com a futura princesa.Todas as tardes o príncipe vinha descansar no jardim e notava que uma rolinha voava sempre ao redor dele, piando triste a fazer pena.
Aquilo sucedeu tantas vezes que o príncipe acabou ficando impressionado.
Mandou um criado armar um laço num galho e a rolinha ficou presa.
O criado levou a rolinha ao príncipe e este a segurou com delicadeza, alisando as peninhas.
Depois coçou a cabecinha da avezinha e encontrou um caroço duro.
Puxou e saiu um alfinete fino.
Imediatamente a moça desencantou-se e apareceu bonita como os amores.
O príncipe ficou sabendo da malvadeza da negra escrava. Mandou prender a Moura Torta e contou a todo o mundo a perversidade dela, condenando-a a morrer queimada e as cinzas serem atiradas ao vento.
Fizeram uma fogueira bem grande e sacudiram a Moura Torta dentro, até que ficou reduzida a poeira.
A moça casou com o príncipe e viveram como Deus com seus anjos, querida por todos.
Entrou por uma perna de pinto e saiu por uma de pato, mandou dizer El-Rei.
Meu Senhor que me contassem quatro...
FONTE: http://www.khouse.fplf.org.br/projetos/mural/navegarpreciso18.html

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